As fronteiras do Cerrado no limiar da mudança do paradigma agricultural no planeta

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Se é por si só um bioma, uma colcha de fitofisionomias anteriores a Gondwana; se é de fato uma zona “degradada” na qual florestas frondosas seriam sua máxima expressão ou ainda, um bioma de fato, mas moldado antropogenicamente, tal qual os Montados e as Dehesas… fato é, o cerrado está em vias de extinção!

Sistemas naturais complexos e sistemas produtivos replicadores de processos naturais — a chave para a conservação da biodiversidade

 
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O Cerrado é uma das regiões de maior biodiversidade do mundo, ao lado da Mata Atlântica, é considerado um dos hotspots mundiais; globalmente significativo por sua extensão, diversidade ecológica, estoques de carbono e função hidrológica no continente sul-americano, além de sua diversidade sociocultural.

 
 

O paradigma agropecuário vigente no Brasil e no mundo está embasado na exploração e, consequente, degradação de grandes extensões de terra que antes eram ocupadas por paisagens naturais e florestas abundantes. A conversão da paisagem de florestas nativas para produção agrícola em monocultivo ou pecuária extensiva é responsável pela degradação dos solos e mananciais, perda de biodiversidade e pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa; além do declínio do poderio econômico do agricultor de subsistência.

Hoje, a atividade agropecuária é a principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa no país. Se fosse um país, o agronegócio brasileiro seria o oitavo maior poluidor do planeta, com emissões brutas de 1,6 bilhão de toneladas (acima do Japão, com 1,3 bilhão).

O cerrado é um bioma brasileiro particularmente ameaçado pela expansão agropecuária. Devido ao seu histórico evolutivo, em condições ambientais inóspitas e restritivas, que culminaram em especiação e adaptação de espécies desde a última glaciação.

O cerrado apresenta riquíssima biodiversidade e complexidade intrínsecas e, ainda que ambíguo, suas espécies nativas têm enorme potencial produtivo, nutricional e gastronômico, subestimado e ainda inexplorado — representando principalmente, oportunidades de negócio únicas e de potencial de agregação de valor praticamente imprevisíveis.

 
 
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Novos sistemas de produção são idealizados em busca de mudanças no presente paradigma produtivo, de modo a conciliar a produção agropecuária com a conservação dos recursos naturais e das florestas. Estes sistemas devem ter alta produtividade, ao mesmo tempo que resgatam a diversidade de cultivos e espécies nativas, aproveitando o potencial intrínseco do bioma onde está inserido, fixando carbono tanto no solo quanto na biomassa, e com potencial para recuperar as extensas áreas de pastagens degradadas e restaurar as florestas outrora presentes.

Sistemas agroflorestais são utilizados milenarmente por agrupamentos humanos como forma de integração homem-natureza, promovendo uma dinâmica ótima de produtividade no tempo, de forma sustentável e duradoura.

Sistemas agroflorestais complexos e sistematizados, são a chave para reverter o processo de degradação vigente, seja dos biomas naturais, das terras produtivas e/ou dos processos de vida na terra.

A sistematização e o retorno econômico se fazem mandatórios para aceleração do processo de adoção de tais sistemas.

Entendemos como sistema de produção em larga escala aquele que apresenta um modelo viável técnica e economicamente, com design, operações, inputs e outputs sistematizados, permitindo sua extrapolação independentemente do tamanho da área, de forma modular. Para que métodos de sistematização se apliquem a sistemas agroflorestais complexos, biodiversos e regenerativos, cada um de seus componentes deve ser abordado por sua funcionalidade no sistema (nicho) e não como uma espécie ou cultura isolada . Assim, criam-se módulos elásticos, adaptáveis a diversas realidades e replicáveis a variadas regiões geográficas. Em última instância, acreditamos que a sistematização do conhecimento, levará à disseminação dos sistemas, já que muitas pessoas replicando significa ganhar escala. (PRETATERRA, 2018).

Ainda, quando pensamos no componente animal como parte do sistema produtivo e complexo, a integração da agrofloresta e da pecuária (sistema agrossilvipastoril) apresenta-se como a solução e caminho para uma série de problemas e possibilidades para o Cerrado e outros biomas complexos.

Tal sistema integra na mesma área produtiva herbáceas forrageiras, enriquecendo as pastagens, com árvores produtivas. Neste sistema pode ser adotada ampla variedade de espécies arbóreas, incluindo nativas, com finalidades diversas como madeira serrada, lenha, celulose, produtos florestais não-madeireiros (PFNM) como frutos, castanhas, látex, resina e até forragem complementar para alimentar o gado. A adoção de sistemas agrossilvipastoris de alto valor agregado é uma das chaves para o desenvolvimento sustentável do cerrado.

Biomas e fitofisionomias endêmicas e complexas como o cerrado brasileiro, em plena disponibilidade ocupacional, dispondo de terras de baixo valor comercial e servindo como fronteira agrícola, estão no limiar entre a conversão monocultural degradadora e a extinção de espécies ou, de manter-se conservado, porém, tornando-se economicamente produtivo e socialmente inclusivo, através de processos produtivos benéficos ao planeta.

Para que a segunda premissa se faça real frente a primeira, cabe uma mudança de paradigma e decisões pioneiras de encabeçar modelos de negócio integradores e regenerativos.

Grande parte das soluções já estão disponíveis, cabe a real tomada de decisão frente a mudança de paradigma de um processo produtivo degradador para uma nova agricultura agregadora e socialmente sustentável no tempo — o cerrado será um dos precursores dessa inflexão da curva devastadora da agricultura moderna, resta saber para qual lado a curva inflexionará.